subject
Português, 27.10.2020 02:20 Gustastrada

A casa que a fome mora Eu de tanto ouvir falar (1)
Dos danos que a fome faz,
Um dia eu saí atrás
Da casa que ela mora.
Passei mais de uma hora
Rodando numa favela
Por gueto, beco e viela,
Mas voltei desanimado,
Aborrecido e cansado.
Sem ter visto o rosto dela.
Vi a cara da miséria
Zombando da humildade,
Vi a mão da caridade
Num gesto de um mendigo
Que dividiu o abrigo,
A cama e o travesseiro,
Com um velho companheiro
Que estava desempregado,
Vi da fome o resultado,
Mas dela nem o roteiro.
Vi num barraco de lona
Um fio de esperança,
Nos olhos de uma criança,
De um pai abandonado,
Primo carnal do pecado,
Irmão dos raios da lua,
Com as costas seminuas
Tatuadas de caliça,
Pedindo um pão de justiça
Do outro lado da rua.
Vi o orgulho ferido
Nos braços da ilusão
Vi pedaços de perdão
Pelos iníquos quebrados,
Vi sonhos despedaçados
Partidos antes da hora,
Vi o amor indo embora,

Vi o tridente da dor,
Mas nem de longe via a cor
Da casa que a fome mora.
Vi a gula pendurada
No peito da precisão
Vi a preguiça no chão (2)
Sem ter força de vontade
Vi o caldo da verdade
Fervendo numa panela
Dizendo: "Aqui ninguém come!"
Ouvi os gritos da fome,
Mas não vi a boca dela.
Passei a noite acordado
Sem saber o que fazer,
Louco, louco pra saber
Onde a fome residia
E por que naquele dia
Ela não foi na favela?
E qual o segredo dela,
Quando queria pisava,
Amolecia e matava
E ninguém matava ela?
No outro dia eu saio
De novo à procura dela,
Mas não naquela favela,
Fui procurar num sobrado
Que tinha do outro lado
Onde morava um sultão.
Quando eu pulei o portão
Eu vi a fome deitada
Em uma rede estirada
No alpendre da mansão.
Eu pensava que a fome
Fosse magricela e feia,
Mas era uma sereia
De corpo espetacular
E quem iria culpar
Aquela linda princesa

De tirar o pão da mesa
Dos subúrbios da cidade
Ou pisar sem piedade
Numa criança indefesa?
Engoli três vezes nada
E perguntei: O seu nome?
Respondeu-me: Sou a fome
Que assola a humanidade,
Ataco vila e cidade,
Deixo o campo morimbundo,
Eu não descanso um segundo
Atrofiando e matando, (3)
Me escondendo e zombando
Dos governantes do mundo.
Me alimento das obras
Que são superfaturadas,
Das verbas que são guiadas
Pros bolsos dos marajás
E me escondo por trás
Da fumaça do canhão,
Dos supérfluos da mansão,
Na soma dos desperdícios,
Na queima dos artifícios
Que cega a população.
Tenho pavor da justiça
E medo da igualdade,

Me banho na vaidade
Da modelo desnutrida

Da renda mal dividida (4)
Na mão do cheque sem fundo,
Sou pesadelo profundo
Do sonho do boia fria
E almoço todo dia
Nos cinco estrelas do mundo.
Se vocês continuarem
Me caçando nas favelas,
Nos lamaçais das vielas,
Nunca vão me encontrar
E eu vou continuar
Usando o terno xadrez
Metendo a bola da vez,
Atrofiando e matando,
Me escondendo e zombando

Respostas
Respostas: 3

Outra pergunta: Português

question
Português, 15.08.2019 00:17
Quais são os desafios nos dias atuais da segurança pública do brasil
Respostas: 1
question
Português, 15.08.2019 00:13
Texto sobre uma critica sobre o descarte de pilhas e baterias..urgent​
Respostas: 1
question
Português, 15.08.2019 00:12
Quais os desafios nos dias atuais da segurança pública do brasil
Respostas: 1
question
Português, 14.08.2019 23:50
1) indentifique as relações de significados estabelecidos pelas preposições destacadas nas frases. a) a porta *de* madeira está rangindo b)trabalhei muito *durante* minha juventude c)nunca viajei *de* avião d)preciso economizar *para* comprar roupas novas e)saí para jantar *com* meus pais na noite de ontem. f)sempre dirija *com* segurança g)já morei *em* tóquio, paris e berlim .
Respostas: 1
Você sabe a resposta certa?
A casa que a fome mora Eu de tanto ouvir falar (1)
Dos danos que a fome faz,
Um dia eu...
Perguntas
question
Matemática, 10.09.2020 08:14
question
Matemática, 10.09.2020 08:14
question
Música, 10.09.2020 08:14
Perguntas no site: 22414773